17dez2017

Deputada luta contra impunidade no trânsito desde que perdeu filho em acidente causado por ex-parlamentar embriagado

Christiane Yared se lançou na vida pública em 2014, cinco anos após fatalidade

Doceira e dona de um café colonial em Curitiba, Christiane Yared se lançou na vida pública em 2014, quando resolveu tentar uma vaga na Câmara dos Deputados. Acabou conseguindo tornar-se a deputada mais bem votada do Paraná. Cinco anos antes, uma tragédia mudou sua vida: o filho Gilmar Rafael, de 26 anos, morreu num acidente de trânsito violento, que causou comoção no estado. Junto com o filho da deputada morreu outro jovem, Murilo de Almeida, de 20 anos.

O responsável pelo acidente foi o então deputado estadual Fernando Ribas Carli Filho, que estava alcoolizado, em alta velocidade e já até gravou vídeo na internet dizendo-se arrependido.

Ali começou o movimento “190 km/h é crime”, em referência à velocidade alcançada pelo carro de Carli Filho quando atingiu o veículo de Gilmar. A mobilização levou em seguida à criação do Instituto Paz no Trânsito, que busca prevenir acidentes automobilísticos.

Nas suas contas, Christiane, que é deputada pelo PR, já deu mais de 2.500 palestras em várias cidades do Paraná. Ficou conhecida por esse trabalho. Em 2013, o então presidente estadual do Podemos (à época, PTN), Elizeu Chociai, viu na mãe que fez do sofrimento uma arma na luta contra as mortes nas estradas um quadro potencial para as eleições que se avizinhavam.

— Ela ficou um pouco receosa de acharem que estava usando o acidente do filho. Eu argumentei que o trabalho que ela fazia ajudou muitas famílias e que isso poderia ser ampliado para todo o Brasil. Ela disse: “É, realmente eu uso a morte do meu filho para evitar que outras mães chorem a morte de seus filhos”. Acabou aceitando, mas se filiou no último dia do prazo final — contou Chociai.

Além de deputada, Christiane é pastora da igreja Evangelho Eterno. Na Câmara, no entanto, Christiane tem uma atuação focada na legislação de trânsito e não nos temas religiosos. No último mês, obteve dupla vitória: a aprovação do projeto, de outra deputada, que aumenta para até oito anos de prisão a pena para o motorista que, sob efeito de álcool ou drogas, provoque a morte de alguém no trânsito; e a derrubada, pelo Supremo Tribunal Federal (STF), da liminar que impedia Carli Filho de ir a júri popular pelo acidente que causou em 2009.

O ex-deputado estadual foi denunciado por duplo homicídio qualificado com dolo eventual (quando assume o risco de produzir o crime), mas recorreu em duas ocasiões. Terá de enfrentar um tribunal pela primeira vez no dia 28 de fevereiro.

Quase nove anos após o desastre, Christiane não faz distinção entre a missão que avocou para si na Câmara e seu drama pessoal. Embora conte com naturalidade todos os detalhes do que aconteceu naquela madrugada do dia 7 de maio de 2009, a história mistura-se hoje com a defesa que faz de seu mandato.

— Muita gente diz que não me vê chorar. Mas não me veem no banho, não me veem na hora de dormir. Se eu chorar, eu não falo, e se eu não falo, eu não posso ajudar a salvar outras vidas. Eu engulo o choro. Tive que lidar com a morte do meu filho. Foram anos muito difíceis, mas de um aprendizado gigantesco — diz.

Christiane não esconde a raiva que tem de Carli Filho, com quem cruzou uma única vez após o acidente em um voo comercial. Ela narra que ficou esperando ele vir até ela na tentativa de se explicar e até pedir perdão. Mas ele não o fez. Em vez disso, o ex-deputado estadual resolveu gravar um vídeo, sete anos após a colisão, dizendo-se arrependido. E ela gravou um vídeo em resposta dizendo que o rapaz chegou atrasado para o enterro de seu filho.

— Naquela noite, ele bebeu quatro garrafas de vinho. Tem imagem dele no restaurante com duas taças na mão, o manobrista tentando convencê-lo a não sair dirigindo daquele jeito. Só foram fazer o exame no sangue dele (armazenado quando o deputado foi hospitalizado após a batida) nove dias depois do acidente, depois de eu insistir muito. Chegou a 7,4 o teor alcoólico (quase quatro vezes o nível considerado tolerável na época pela legislação de trânsito) — conta a deputada.

Uma obsessão

A tentativa de agravar a punição para quem bebe ou se droga e usa o carro é quase uma obsessão da deputada. Projeto apresentado por ela este ano torna inafiançável o crime de causar a morte no trânsito e institui o conceito de “flagrante continuado”, estendendo os efeitos do flagrante para o infrator que comete acidente e foge do local.

— Quem bebeu e matou no trânsito tem que ser preso, tem que ser crime inafiançável. Não dá para ir para casa curar a ressaca, enquanto a outra família vai comprar um caixão — diz a deputada.

O texto que vai à sanção presidencial tornando mais dura a pena para infratores que provocam mortes no trânsito é de autoria da deputada Keiko Ota (PSB-SP), mas tão logo assumiu como deputada, Christiane apresentou um projeto de mesmo teor.

Fonte: O Globo